Fabio Barreiro

 



A Voz da Boneca
 

    Leon acordou assustado, suava muito e respirava pesadamente. Estava encostado numa parede, no extremo sem saída de um estreito corredor. Algumas luminárias deixavam aquela passagem clara; sua aparência velha e cinzenta incomodou o rapaz.
    — Onde eu estou? –questionou.
    Pôs-se de pé e, apoiando a mão na parede de concreto, começou a caminhar. O fim do corredor não podia ser visto nem pressentido,não havia sequer uma brisa lá. Leon olhava constantemente para trás, com medo – só não sabia ao certo do quê. Sensações horríveis hostilizavam suas emoções.
    O som de seus passos ecoava pela passagem. As lâmpadas ameaçavam se apagar, porém, resistiam firmemente.A cada passo que dava, uma enorme dor em sua barriga aparecia, dando-lhe a vontade de vomitar. Parou e roçou o rosto na parede – sentiu sua aspereza.
    — Ah... – gemeu temeroso. – Que dor é essa?
    Sentou-se no chão, tremendo. Nunca havia sentido aquela sensação, parecia que algo se mexia dentro de seu estômago. Apoiou as mãos no piso frio e deixou uma gosma roxa sair de sua boca. A dor havia sumido, mas não o medo.
    “O que é isso!?”, pensou.

           O denso líquido se contorceu e sumiu pelas frestas do chão. Leon encarou o concreto por alguns segundos e olhou para a direção que seguia. A gosma reapareceu e deslizou para a escuridão. O rapaz se levantou, com certa dificuldade, e começou a segui-la. Andando apressadamente, focava a visão em se objetivo a todo o tempo, sem sequer piscar.
    Não pensava em nada e nem precisava, sentia uma enorme necessidade em seguir aquele estranho líquido – pressentia que poderia encontrar a saída através dela. Leon estava tão concentrado em sua perseguição que não notou quando as luminárias, que ele deixava para trás, começaram a se apagar – a escuridão corria em seu encalço.
    Ouviu um alto grunhido atrás de si e, ainda andando, virou o rosto. Sentiu o medo se multiplicar dentro dele quando encarou o escuro. Pôde ver um leve vulto se mexendo lá. Desviou o olhar e continuou atrás da gosma.
    O suor escorria pelo seu rosto. Suas mãos procuravam apoio nas paredes. O temor que sentia tentava lhe derrubar, enfraquecendo suas pernas a cada cinco passos. Piscava compulsivamente, sua respiração adquirira um som asmático, seu coração tentava saltar garganta afora.
    Viu o final do corredor. Mas não ficou feliz: era outro beco sem saída. Entretanto, uma cabeça se postava perto da parede. Parou, temendo o pior, e observou aquela face. Não possuía cabelos e seus globos oculares alvos lhe proporcionaram arrepios. Sentiu um grande alívio ao ver que não era parte de um ser humano, mas sim de uma boneca.
    Seu pescoço se alongava até o chão e terminava numa pequena bifurcação, adentrando o interior do concreto. A gosma se aproximou e subiu até a boca da boneca. Espremeu-se para dentro, sumindo definitivamente.
    Alguns sons estranhos saíam da escuridão, que se limitava a dez metros de Leon. O rapaz caminhou até a boneca e deixou-se aprofundar em seus olhos vazios. Sentiu uma sensação estranha, como se ela tivesse medo dele. Tocou aquela face. Era macia e sua textura muito parecida com a pele humana. Sentia-se confortável encarando-a.
    Sua boca se abriu lentamente e dela saiu uma suave e infantil voz:
    — Você ajudaria alguém doente?
    Leon não disse nada, apenas a observou intrigado.
    — Você ajudaria um doente? – voltou a questioná-lo.
    — Depende...
    A boca voltou a se fechar. Leon ouviu uma grande risada vinda da escuridão, que se movimentou um pouco em sua direção. Estremeceu e quando olhou para a boneca, outras palavras já estavam sendo pronunciadas:
    — Depende do quê?
    — Da situação.
    O rapaz ouviu mais algumas risadas.
    — Que situação?
    Leon parou e pensou um pouco. A cada nova resposta que ele dava, mais o escuro se prolongava e o vulto ria. Arriscou:
    — De vida ou morte. Ajudaria mais doentes que estivessem morrendo.
    A boneca nada falou nem a escuridão. Olhou para trás e constatou o que já suspeitava – ela havia se afastado. Havia descoberto o que se passava: esta cabeça era sua única chance, talvez a chave da saída.


            — Você sabe amar? – perguntou ela com sua voz fina.
    — Não – disse Leon após um minuto de reflexão.
    Não houve risada.
    — Você possui moral?
    — Sim – respondeu firmemente.
    — Amanhã será um novo dia?
    — Claro!
    — Sua mãe te ama?
    — Muito.
    — E seu pai?
    — Não tanto...
    — Acredita na paz mundial?
    — Sim.
    Durante todo este questionário, Leon não ouviu um som sequer atrás de si. Estava confiante que toda aquela escuridão estaria se dissipando. Olhou para trás e surpreendeu-se com o que viu. Havia acontecido o contrário e o vulto, que se escondia nas sombras, ria baixinho, animado.
    — Não... Por que isso? – indagou o nada, sentindo o medo se apoderar de sua mente. Leon estava frustrado, pensou que dando respostas morais e verdadeiras em sua relação se salvaria daquele vácuo escuro. Olhou para a boneca novamente. – Por quê?
    — Às vezes precisamos da ilusão para acreditar em algo. O pensamento da fuga lhe era agradável, assim a obedecemos.
    O rapaz ficou perplexo, percebeu que a saída nunca iria aparecer; ela sequer existia. Ajoelhou-se no chão e levou as mãos ao rosto.
    — A despedida é breve. O adeus é eterno. Por isso lhe saúdo e desejo toda a sorte do mundo. Adeus.
A cabeça derreteu, formando uma gosma rubra, e, junto com o pescoço, sumiu no pequeno buraco. A escuridão envolveu Leon e lhe deu o prazer de soltar seus gritos de pura dor.

Fabio Barreiro