Literatura


MANOEL DE BARROS


Vamos aqui 'delirar' com este poeta que nada sutilmente faz ploc em nossos cérebros? ploc é quando uma idéia 'não pode ser' então estrala alguns neurônios e ficamos de boca aberta até um novo sentido fazer sentido então sorrimos! abriu-se uma janela para o insólito!
Coisa maravilhosa isso!



No descomeço era o verbo.
Só depois é que veio o delírio do verbo.
O delírio do verbo estava no começo, lá,
Onde a criança diz:
eu escuto a cor dos passarinhos.
A criança não sabe que o verbo escutar não
Funciona para cor, mas para som.
Então se a criança muda a função de um verbo, ele delira.
E pois.
Em poesia que é voz de poeta,
que é a voz
De fazer nascimentos -
O verbo tem que pegar delírio.

(Manoel de Barros)


Manoel de Barros

O delírio de seus versos, a 'inutilidade' de sua poesia é tão essencial quanto o cantar dos pássaros e a brisa movimentando o lago.
A paixão pelas palavras e a necessidade de reinventar o mundo concreto e frio é tão especial quanto o abraço do filho e o acorde da canção.
Me põe em êxtase e a flutuar em prazer tal como a nuvem leve e solta em céu azul. Me diz as ânsias de viver num mundo que não é meu e das vontades de perder a razão e viver em intensidade feliz de quem despreocupa-se com os padrões caducos da velha energia.
O desperdício de seus versos me diz dos silêncios que gritam nas madrugadas, alertando da importância do simples e natural.
A feição de tuas palavras traduz o que a alma tanto queria sentir entre as gentes desacostumadas de ouvir suas próprias vozes interiores...a plenitude de Ser!


Anorkinda

 

Soberania

Manoel de Barros

Naquele dia, no meio do jantar, eu contei que
tentara pegar na bunda do vento — mas o rabo
do vento escorregava muito e eu não consegui
pegar. Eu teria sete anos. A mãe fez um sorriso
carinhoso para mim e não disse nada. Meus irmãos
deram gaitadas me gozando. O pai ficou preocupado
e disse que eu tivera um vareio da imaginação.
Mas que esses vareios acabariam com os estudos.
E me mandou estudar em livros. Eu vim. E logo li
alguns tomos havidos na biblioteca do Colégio.
E dei de estudar pra frente. Aprendi a teoria
das idéias e da razão pura. Especulei filósofos
e até cheguei aos eruditos. Aos homens de grande
saber. Achei que os eruditos nas suas altas
abstrações se esqueciam das coisas simples da
terra. Foi aí que encontrei Einstein (ele mesmo
— o Alberto Einstein). Que me ensinou esta frase:
A imaginação é mais importante do que o saber.
Fiquei alcandorado! E fiz uma brincadeira. Botei
um pouco de inocência na erudição. Deu certo. Meu
olho começou a ver de novo as pobres coisas do
chão mijadas de orvalho. E vi as borboletas. E
meditei sobre as borboletas. Vi que elas dominam
o mais leve sem precisar de ter motor nenhum no
corpo. (Essa engenharia de Deus!) E vi que elas
podem pousar nas flores e nas pedras sem magoar as
próprias asas. E vi que o homem não tem soberania
nem pra ser um bentevi.


Texto extraído do livro (caixinha) “Memórias Inventadas - A Terceira Infância”, Editor Planeta - São Paulo, 2008, tomo X, com iluminuras de Martha Barros.